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Consumo e Consumismo

Foto do escritor: Ana Luísa
Ana Luísa
23 de set.
4 min de leitura

 

Já algumas semanas pensava em escrever sobre esse tema, que é muito caro a mim. Em um mundo no qual não temos como viver sem consumir – desde produtos de higiene, como sabonete, pasta dental etc. até alimentação – como saber onde se encerra o limite da necessidade e começa o império da vontade?

Pessoas mais próximas a mim sabem que tive uma fase, há uns bons dez anos, que perdi a linha de um consumo aceitável. Ainda muito nova, tive acesso a um cartão de crédito e, mais rápido do que imaginei, acabei gastando todo o meu dinheiro e mais um pouco.

Mais ou menos em um mesmo período, o filme Os delírios de consumo de Becky Bloom marcou essa fase que passei, principalmente pelas identificações que tive com a personagem principal; seus principais gastos eram em roupas e ela estava afogada em dívidas, mas sempre arrumava um jeito de conseguir o último item da promoção. A confusão que se instaura começa a afetar a vida profissional de Becky e um possível interesse amoroso, ambos relacionados a um editorial de finanças – uma ironia para o drama interno da personagem.

Em que pese a situação de Becky seja um extremo, de um universo fictício, as questões que se colocam sobre o consumo seguem mais atuais do que nunca. Hoje, ligamos nosso celular e, seja no e-mail, seja no Instagram, seja em qualquer plataforma que usamos, somos bombardeados com anúncios. Alguns algoritmos são repletos de promoções, sales, códigos de compra especiais. Há sempre algo que “precisamos”, uma “excelente oportunidade”.

Então chegamos a três pilares desse tema: o vício, o consumismo e o consumo por si.

Há algum tempo, fiz a leitura da obra E se eu parasse de comprar?: O ano que fiquei fora da moda, da autora Joanna Moura, sobre a experiência dela com as compras e como isso a levou a diversas dificuldades em vista da compulsão, de sempre precisar comprar algo. A preocupação gerou o desejo da meta, de ficar um tempo sem adquirir nenhuma peça de roupa, o que desperta reflexões muito interessantes sobre o que realmente precisamos.

Curioso é que a autora menciona traços muito pertinentes àquelas pessoas que, como eu, desenvolveram um aspecto afetivo com as compras. As idas as shopping com a mãe, a sensação de novidade (que dura pouco e cria a expectativa da próxima) ... E a sensação também de anestesia de frustrações pessoais com a vida (comuns e normais) quando compramos.

Vencido o desafio que a autora se propôs, ela conseguiu desenvolver uma nova relação com a moda e com as peças que já tinha. Tudo que nos faz questionar o quanto realmente precisamos para viver bem e, também, ser fiel ao nosso estilo.

É certo que, a todo o tempo, somos incentivados a nunca estarmos satisfeitos. O trabalho acaba se tornando um meio para se conseguir adquirir produtos e serviços. E a indústria da moda se insere nessa realidade, abraçando novas tendências em tempo recorde, para que, logo após determinado desfile, você já consiga comprar um vestido daquela mesma cor que apareceu, há algumas poucas horas, nas passarelas.

Acontece que as problemáticas desse comportamento começam a surgir no nosso âmbito individual: falta de recurso para outros projetos pessoais, dificuldades financeiras, aumento de ansiedade e da própria compulsão associada à compra...

Muitos de nós não chegamos no estágio de fazer dívidas ou ter que esconder determinadas compras de nossos parceiros e/ou familiares. Todavia, isso não quer dizer que estamos fora da seara do consumismo. O risco pode ser, inclusive, de acharmos que não temos que estar atentos pois “não temos grandes problemas” com o consumo.

É claro que a relação com o que compramos é algo muito pessoal; longe de mim querer proferir qualquer juízo de valor sobre o que importa ou o que é necessário para cada um. O que pretendo refletir, porém, é como, com mais facilidade do que imaginamos, somos levados a esse lugar de consumir mais do que o necessário.

Meus pais, quando crianças, tinham aproximadamente quatro pares de sapato cada; um para sair, outro para o cotidiano, um para praia e piscina e um último para eventos especiais, como casamentos e batizados.

Podemos pensar em um recorte socioeconômico, mas é perceptível a mudança comportamental em relação às peças que possuímos. Com o barateamento na produção e na indústria, não é incomum que hoje seja mais barato comprar uma bolsa nova, por exemplo, do que consertarmos aquela em algum sapateiro (inclusive, está difícil encontrar alguns bons por aí, não é mesmo?).

Para esse cenário, o fast fashion teve papel fundamental, com peças de produção em escala, baratas – inclusive com grandes debates sobre a origem e formas de exploração na produção das roupas. Mais recentemente, algumas marcas tem tentado se desvincular dessa imagem desgastada de produção rápida, de qualidade questionável. Vemos diversas marcas trabalhando com couros, sedas e algodões certificados nesse esforço de entregar algo com a percepção de durabilidade e qualidade superior. Todavia, esse esforço causa pouco impacto se o nosso ritmo de consumo continua o mesmo.

Para além das marcas de roupa, grandes ícones de cultura pop, por muito tempo, incentivaram essa perspectiva. Quem não se recorda dos problemas financeiros da Carrie em Sex and the City, com 100 pares de sapatos de 400 dólares cada, mas sem dinheiro algum para sua mudança após o término com Aidan? Ou, ainda, Jenny Humphrey, em Gossip Girl, quando, ainda adolescente, tentava pertencer ao mundo das colegas da escola de elite, com marcas de luxo das quais ela não podia pagar? E, claro, de quem falamos mais cedo, Becky Bloom.

Esse debate ainda desagua no questionamento de como essas personagens femininas acabam associando a imagem da mulher moderna a essa relação com a compra. Até que ponto, nós, mulheres, somos incentivadas a comprar em excesso ao invés de buscar uma educação financeira, que também reflita em sobriedade e equilíbrio no consumo? Me recordo da fala icônica de Anne Hathaway, na divulgação de O Diabo Veste Prada 2, “It’s not cute to be financially illiterate”.

O que nos leva ao grande questionamento: até que ponto é suficiente? Quantos pares de sapato são razoáveis? Quantos vestidos e quantas bolsas precisamos? Não há resposta para essas perguntas. A reflexão é muito pessoal e diz respeito à nossa própria consciência, do que achamos razoável consumir. A única coisa que consigo afirmar é como, com o passar do anos, penso que tenho cada vez mais e que preciso de cada vez menos.

 
 
 

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