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Os conglomerados fashion

Foto do escritor: Ana Luísa
Ana Luísa
7 de set.
5 min de leitura

Atualizado: 13 de set.

 

Nessa última semana, não poderia deixar de comentar a cisão do Grupo Azzas 2154, amplamente anunciada nos veículos de imprensa, muito para além daqueles especializados em moda. Após dois anos dentro de uma mesma estrutura empresarial, os grupos liderados por Alexandre Birman, à frente de marcas como Arezzo e Schutz, e Roberto Jatahy, ligado originalmente ao Grupo Soma, com NV, Maria Filó, Animale e Farm, seguirão caminhos distintos. A reorganização, porém, não significa a retomada do cenário exato antes da fusão: a Farm, um dos ativos mais valiosos do grupo, permanecerá dividida entre as duas estruturas, com aproximadamente 42,6% vinculados ao Soma e 57,4% à Arezzo&Co. Esta última ficará também com a Hering, enquanto seguem os estudos envolvendo a expansão e uma possível operação com a FARM em sua atuação internacional, sob assessoria do Morgan Stanley [1].

 

A importância que essa notícia assumiu nos noticiários brasileiros, todavia, era de se esperar. Um dos maiores conglomerados do país, após tempo relativamente curto de parceria, anuncia a separação empresarial após divergências de gestão e governança. Ainda assim, podemos nos perguntar, “o que é que eu tenho a ver com isso?!”.

 

Acontece que a formação dos conglomerados na indústria antecede, em muito, o caso em questão. Como, de forma muito interessante, mostra a série Kingdom of Dreams, a formação desses gigantes que vemos hoje ganhou força na década de 1990, após as primeiras compras do que hoje é o Grupo LVMH, em seguida tensionado pela formação do Gucci Group, hoje Kering Group.

 

O que víamos, anteriormente, era um cenário de criação centrado na figura dos fundadores da própria marca, Mademoiselle Chanel, Monsieur Balenciaga, Hubert de Givenchy etc. Com o passar dos anos, porém, após uma temporada nos EUA, Bernard Arnault, no fim da década de 1980, após aquisição da Dior e fusão da Louis Vuitton com Moet Hennessy, assume o comando como acionista majoritário da LVMH. O que parecia ser uma decisão eminentemente corporativa e empresarial, iniciou um modelo estrutural de negócio, o qual incorpora marcas históricas de peso dentro de uma logística estruturada, para distribuição, gestão e expansão internacional.

 

No mesmo grupo, se seguiram Givenchy, Celine e Loewe. A partir disso, essas grandes maisons, em meio à grande revitalização que passava o setor na época (recomendo a série Vogue: Anos 90!) se moldam dentro de uma estrutura de tamanho exponencial, com aqueles desfiles de apresentações espetaculares, dentro dessa nova forma de comunicação e de despertar de desejo. Estamos falando de John Galliano na Dior e Marc Jacobs na Louis Vuitton.

 

E como não citar, ainda, Tom Ford, na Gucci de 1994, e Alexander McQueen, que, concomitantemente à mudança empresarial da indústria, também trouxeram o vigor necessário e a linguagem estética cirúrgica para fazer das temporadas os grandes eventos do ano. Uma nova relação da moda com Hollywood também foi fundamental para ressignificar as noções de desejo e de identificação das peças com o público mais amplo, que, se não pudesse consumir, continuaria desejando... Estou falando Nicole Kidman vestindo Dior por John Galliano no Oscar de 1997.

 

Particularmente em relação à Gucci, reza a lenda que o próprio Tom Ford, junto com seu parceiro de longa data, Domenico de Sole, tinham receios quanto a uma possível aquisição da marca por Bernard, no grupo LVMH – o que é sugerido não só na série documental Kingdom of Dreams, como também, de forma mais sutil, no filme Casa Gucci. Eventualmente, a aquisição foi concretizada por François Pinault, um empresário proveniente originalmente do setor madeireiro, que buscava ampliar a sua atuação em outras áreas.

 

Por outro lado, entretanto, passamos a observar a tensão entre os criativos e as estruturas empresariais, orientadas por estatísticas, contratos, produção contínua e industrial. Alexandre McQueen sendo o exemplo mais simbólico desse conflito, que assumiu a diretoria criativa da Givenchy, do LVMH, com a intenção de aproveitar o retorno financeiro no desenvolvimento da sua própria marca (pressupomos que ele realmente queria ter a liberdade de fazer (?). A sua marca, nos anos 2000, porém, foi parcialmente adquirida pelo Gucci Group, e a saída do próprio designer do Grupo LVMH, em 2001.

 

Fato é que, de um lado, tínhamos um sopro ultra criativo com Tom Ford, Alexander McQueen, Marc Jacobs, John Galliano etc. acompanhado da conglomerização da indústria, que transformou o setor para sempre. E, claro, isso se reverbera com o que vemos com o Grupo Azzas e o SOMA hoje.

 

Em que pese falamos sempre da moda como essa força estética que molda e comunica na vida de todas as pessoas, todos os dias, na nossa realidade capitalista, somos afetados pelas grandes empresas que guiam os rumos e ditam as direções na construção das suas peças, que são, essencialmente, produtos, construídos sob a ideia de desejo.

 

Portanto, quando falamos de moda na atualidade, não conseguimos separar o seu componente consumível, (em sua maioria) não artesanal, do seu elemento artístico de criação. É nesse limite que vemos as tensões. Estamos falando de algo que é feito com o intuito de ser um produto comercializável (em que pese a criação do designer não necessariamente se colocar primordialmente nesse sentido), não necessariamente acessível. Por isso, categorizar a moda como uma expressão unicamente artística é muito difícil.

 

Peguemos o exemplo da Farm. Um sucesso, inclusive, no próprio conglomerado, que vem concretizando uma expansão internacional admirável, que poucas marcas brasileiras conseguiram chegar perto. Em cada loja, se vê a estamparia que é a identidade da marca, a qual segue hoje em outros produtos, como garrafas, toalhas, malas de viagem “ETC.”. Portanto, as criações artísticas são difundidas em artigos, para uma linguagem de marca produzida em escala, que foge à lógica individualizada, de produção artesanal.

 

Não sejamos injustos. A indústria mudou. E se você conhece alguém ou alguma marca que produz toda a sua coleção de forma orgânica e artesanalmente, sabemos se tratar de uma exceção quantitativa. Felizmente ou não, é como a atualidade se colocou para nós. A reflexão que intento propor é como essa formatação empresarial do setor chega, até nós, no dia a dia das nossas compras e das nossas escolhas. Além do design por trás de qualquer peça que consumimos, existe toda uma estrutura bilionária que decide o que vamos consumir, ou melhor, o que vamos desejar.

 

Para além da icônica cena de Miranda Priestly, que nos ensina que o suéter azul é uma decisão tomada pelas “pessoas nessa sala, de uma pilha de coisas”, os conglomerados também estão entre essas pessoas; junto com os grandes veículos fashion, também validados no street style e nas redes sociais, pelos influencers...

 

Os próximos dias virão e saberemos como essa mudança afetará marcas queridas como a própria Farm, Arezzo, Hering, Reserva, Animale, NV, Maria Filó, dentre outras. Fato é que, mais do que apenas me interessar pelo que vejo nas vitrines, cada vez mais, nesse (não tão novo) modelo do setor, me interesso também pelos grandes conglomerados que regem aquilo que intento comprar e vestir no futuro...  


 
 
 

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