Equilibrada


22 de agosto de 2026. Foi essa a data de um dos shows mais marcantes, diria eu, da cultura brasileira e um dos mais marcantes que eu pude presenciar. É esse mesmo, a Equilibrivm Tour, desse último sábado, com transmissão ao vivo o Multishow e TV Globo, diretamente do Caminho Niemeyer, Niterói.
Já algum tempo, eu venho acompanhando de perto o trabalho dessa incrível artista, Anitta. Estive nos seus ensaios nos anos de 2024 e 2022, se não me falha a memória, e, ambos os eventos, impecáveis. Mais de seis horas de entretenimento, com muita energia, produção e qualidade musical. Diversos sucessos da cantora, além de participações especiais e clássicos de carnaval, que fizeram até essa caseira de carteirinha pular a folia.
Até então, que a Anitta era uma grande artista, para mim, não havia dúvidas. Suas músicas que já iam do funk ao pop (como esquecer a era “Bang”?), com passeios pelo sertanejo – vale lembrar da sua participação em “Some que ele vem atrás”, com Marília Mendonça – e que já retomava suas origens com uma nova missão: levar o funk ao cenário internacional.
Funk Generation trouxe a Anitta consolidada, que já havia conquistado o topo das paradas com “Envolver” e com o lançamento de seus dois audiovisuais junto com a Netflix, “Vai Anitta” (2018) e “Anitta: Made in Honório” (2020). O álbum trazia algumas faixas interessantíssimas, com destaque para o clipe de “Funk Rave”, que invertia, intencionalmente, eventuais estereótipos de mulheres em segundo plano; aqui, Anitta é quem está cercada de homens, enquanto não deixa de lado um bom rebolado. Particularmente, embora não tenha tido o mesmo sucesso comercial, a minha favorita da coletânea é “Meme” e fica aqui essa dica.
Mas realmente ninguém esperava um álbum como Equibrivm. Aos poucos, estávamos tendo acesso a uma Anitta mais sensível, mais ligada a questões espirituais e religiosas. “Larissa: O Outro Lado de Anitta” deixou algumas das angústias da cantora bem colocadas para nós, fãs, com dramas que atravessam a nossa geração: a busca por um sucesso (muitas vezes) irreal, a insatisfação eterna, a dificuldade de entender e aceitar os próprios limites, sejam eles corporais, sejam eles mentais/psíquicos/espirituais.
Ainda assim, o lançamento desse álbum surpreendeu não só os que acompanham o trabalho da cantora, mas como também a crítica especializada. Rola na internet os elogios de Nelson Motta a essa produção de peso, que inclui, dentre vários talentosíssimos artistas, Maria Bethânia, Alceu Valença, Liniker, Maria Sena, (nada mais, nada menos que) Shakira e Katu Mirim.
Com músicas que falam de espiritualidade, religiosidade e sexualidade, a sensação é que estamos vendo um lado mais maduro da artista, que, como muitas de nós, chegou numa fase – esses 30 anos – em que começamos a nos perguntar por que fazemos determinadas coisas, no que acreditamos e que mensagem queremos deixar nesse mundo louco.
A qualidade do trabalho é tanta que tenho dificuldade de escolher as favoritas. Em que pese o material musical seja, por si só, excelente, não há como negar o impacto visual investido pela cantora na produção. A diretora criativa, Nídia Aranha, esteve com a artista durante esse processo e colaborou, de forma crucial, para o sucesso de todo o audiovisual da obra, que ainda rendeu um material de 35 minutos para a parte II do álbum.
Dito isso, chegamos aonde eu realmente queria. Na turnê que leva o nome da produção. Que o álbum vem repercutindo de forma muito positiva e reconhecida, está posto. O que, porém, queria destacar é o impacto dessa turnê e, particularmente, do show televisado no Caminho Niemeyer, dando corpo a todo esse projeto de força no formato ao vivo.
De forma inovadora, o Evento abria mais cedo, com diversas atividades vinculadas ao autoconhecimento e à espiritualidade na Vila Equilibrivm. Tudo isso, como diziam os próprios letreiros, mais do que um show, a turnê Equilibrivm era “uma experiência imersiva e sensorial” completa.
Encerradas as atividades da Vila, às 18h em ponto tivemos o início do show. Em um primeiro bloco, “Ato I”, Anitta/Larissa ascende junto a um sol amarelo lindíssimo, ao som de “Ouro” e “Contemplação”, com uma posterior chuva dourada como pano de fundo. A cantora surge com uma roupa feita especialmente de crochê e um véu de deixar qualquer um lindamente emocionado(a). Dentre as melodias de “Ogum me Rodeia”, “Caminhador” e um rápido cover de “Andar com Fé”, os vocais surpreendentes elevam a plateia e deixam qualquer um com sentimento de muita gratidão por estarem ali. “Eu não sou santa” é cantada com uma Nossa Senhora negra, demonstrando como cada escolha estética da produção tem uma intenção de trazer uma reflexão. “Deus mãe” é o ápice da emoção, com um coro de “Gaia” capaz de deixar qualquer um com os olhos marejados.
Em um segundo bloco, “Ato II”, a cantora suscita canções que evocam identidade, com “Desgraça”, “Mandinga” e “Feitiço”, deixando a plateia em êxtase com a parte mais agitada do álbum. Os elementos que evocam as figuras do Candomblé impressionam e hipnotizam. Mais do que tudo, dão continuidade a uma importante mensagem do álbum, a favor da compreensão e do respeito, contra qualquer forma de intolerância (inclusive, a religiosa).
O balé é outro destaque excepcional. Os dançarinos levaram a capoeira ao palco, o forró, o samba e outros elementos que demonstram como a pesquisa e a seriedade na arte está em todos os aspectos da produção. Isso fica muito claro no “Ato III”, com “Divino Sexual”, com uma expressão mais sensorial de sexualidade, em comparação ao que estávamos acostumados a ver nos seus trabalhos anteriores, mas não por isso menos sensual – o que parece muito evocar o que nós, mulheres, sentimos com o amadurecimento; o corpo fica mais sensível, mais sutil e menos óbvio nas suas formas de expressividade.
Finalmente, o que estamos aqui chamando de “Ato IV” se encerra com grandes produções do álbum de “Você Já Sabe”, “Choka Choka”, “Sal Grosso”, “Meia Noite” e “Okê”, esta última que encerra a turnê agrupando a plateia em com a abertura de grandes rodas, todos com as 17 etnias indígenas do Brasil a plenos pulmões: Pataxó, Tikuna, Múra, Terena, Turiwara, Guajajara, Potiguara, Tapeba, Tupinambá, Yanomami, Kayapó, Munduruku, Ashaninka, Kalapalo, Makuxi, Xucuru e Guarani-Kaiowá.
Finalmente, dando uma prévia dos Ensaios ainda a chegar em 2027, a cantora lembra que “um pouco de equilíbrio, um pouco de rebolado”, cantando para os seus queridos fãs os sucessos “Lugar Perfeito”, “Modo Turbo” e “Lose Ya Breath”, encerrando o espetáculo com “Boys Don’t Cry”.
A sensação que fica é de termos vivido um marco cultural brasileiro sem precedentes, com uma produção estética – música, dança, audiovisual, moda – que atravessa e inclui a grande diversidade que temos no nosso país. Por tudo isso, posso afirmar, um dos melhores shows que já pude ir.
Se você não conseguiu estar presente, o show está disponível na GloboPlay (já vi alguns dos melhores momentos). E, parece que de acordo com algumas falas da própria cantora, existe a possibilidade de novas datas da turnê no ano que vem. Eu, com certeza, estarei lá. E você, já se equilibrou hoje?




Excelente . Cada dia que leio suas postagens fico encantada e sempre ansiosa para o próximo texto...parabéns!