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Indústria do wellness: vivemos mais, mas vivemos melhor?

Foto do escritor: Ana Luísa
Ana Luísa
30 de ago.
5 min de leitura

Nesses últimos meses, pude perceber que estava manifestando algumas espécies de pequenas “sardas” de sol ao longo do meu nariz. Assustada após esse pequeno sinal de que a pele do rosto não estava mais como nos meus 18 anos, comecei a pesquisar como remediar a situação. A partir disso, adquiri uma série de produtos de skincare para evitar o aumento das machas, além de um fortíssimo protetor solar de uso diário. Nessa onda, aproveitei e incluí na rotina os produtos que a princípio diminuiriam minhas olheiras, algo que também sempre me incomodou, mas que a rotina de trabalho intensa ajudou a ressaltar nessa virada de 31 anos de idade.

 

Cafeína, retinol, vitamina C, niacinamida foram nomes que passaram a fazer parte do meu vocabulário. À noite, limpeza da pele com sabonete específico e água micelar. Depois, sérum 1, depois, sérum 2; creme localizado e, finalmente, hidratante geral. Escovo os dentes e durmo. Acordo, ainda cansada, tomo minha “cafeína” com leite e, depois do banho, novamente, a rotina de pele, com mais uma dose de “cafeína”, agora com a inclusão do protetor solar. No fim do dia, tudo de novo.

 

É inegável o quanto temos visto o avanço da ciência em termos de tecnologia e de conhecimento sobre o que retarda e o que acelera o envelhecimento humano. O álcool, ressignificado (estudos recentes mostram que não há dose segura de consumo[1]); de mesmo modo, o consumo desmedido de açúcar refinado, a necessidade de atividade física constante e rotineira, a importância de boas noites de sono. E, o que tem gerado engajamento fértil nas redes sociais, a alimentação regrada, com protagonismo atribuído à proteína, seja na sua forma natural, seja na sua forma de suplementos, consumida nos “prés” e/ou nos “pós” treinos.

 

Além disso, ainda vemos a ascensão da moda fitness como marcador social e individual de pertencimento. Não mais restritas às academias e às aulas de dança, as leggings, os tops, as saias, os tênis e as bolsas assumem o design aeróbico funcional e saem desses espaços restritos para ocupar o dia a dia dessas pessoas que incorporam o verdadeiro luxo contemporâneo, o do autocuidado. Afinal, quem nunca viu por aí alguns poucos muitos exemplares da Duffel Matelassê da Track and Field?

 

Em um cenário que, para qualquer “problema” que temos com nosso corpo, temos uma pronta solução – canetas para sobrepeso, séruns para rugas e olheiras, mapeamento de sono para insônia, monitoramento de batimentos etc. – apresentar qualquer uma dessas “imperfeições” soa quase como uma falha individual em não se enquadrar nesse padrão de, mais do que beleza, autocuidado. A partir disso, não vamos à academia para nos sentirmos melhor; vamos sob a ótica da disciplina; ou, ainda, para performarmos no mundo das redes sociais, onde o “tá pago” nos dá uma sensação de pertencimento e de tarefa cumprida de “cuidarmos de nós mesmos”.

 

É claro que existe algo de muito benéfico em cuidar da nossa saúde, em todos os seus aspectos. O que, porém, nos faz refletir é como que isso, muito para além de ser algo alcançável por uma ótica de bem-estar (“vou à academia porque me sinto bem, fisicamente”), assume uma roupagem de imposição estética e comportamental de quem, a princípio, devemos ser. Por isso, ultimamente falamos tanto da “indústria do wellness”.

 

Ao me deparar com as minhas olheiras, não me questionei sobre se elas poderiam estar relacionadas a noites mal dormidas, com preocupações de trabalho e outras formas de ansiedade não saudáveis... Se a indústria me oferece um sérum que promete reduzir as tais manchas, passar todos os dias o produto e, ainda, sentir certo bem-estar temporário, em saber que estou me cuidando, parece mais rápido e prático do que tentar entender por que minhas horas de sono podem não estar sendo tão bem aproveitadas...

 

Ainda assim, a sensação é de que esse panorama não eliminou, tampouco parece ter diminuído consideravelmente, as angústias e as insatisfações humanas. Por vezes, parece que o uso excessivo das redes sociais, a exposição a anúncios diversos e a telas por horas consideráveis nos causou mais ansiedade e mais angústias. Por outro lado, o crescimento da indústria do wellness vem sendo constatado, trazendo a noção de bem-estar como commodity alcançável, a alguns produtinhos de distância. O 2025 Global Wellness Economy Monitor revela que a economia do wellness dobrou de tamanho desde 2013 e atingiu um novo recorde de US$ 6,8 trilhões em 2024[2].

 

Com isso, cuidar de si está muito próximo de consumir algo para si. Temos um mercado hoje que consegue materializar necessidades subjetivas – relaxamento, tranquilidade, autoestima – em produtos adquiríveis, passíveis de serem também comunicáveis nas redes sociais, o que nos situa, socialmente, que fazemos parte desse grupo, titular desse bem que é o autocuidado, artigo de luxo no mundo de hoje.

 

Não podemos esquecer, contudo, que – como a série da Netflix, “Como Viver até os 100: Os Segredos das Zonas Azuis”, bem mostra – é que muitas das necessidades humanas mais básicas, que incluem o cuidado consigo mesmo, são satisfeitas de formas muito simples: uma alimentação orgânica e de preparo cuidadoso, a existência de vínculos sociais de comunidade, a prática de exercícios como rotina, ainda que de maneira mais natural (caminhadas, agachamentos para sentar-se etc.).

 

Não é necessariamente um problema querermos viver mais e viver melhor e usar, para isso, determinadas práticas ou produtos para alcançar esse fim; a questão que se coloca, todavia, é que, se não estivermos atentos, o autocuidado se torna algo essencialmente e primordialmente consumível... Uma imposição que nos mensura e nos avalia a todo o tempo, interminavelmente.

 

Hoje mesmo estava com um amigo que “parou de correr” porque, depois que ele conseguiu correr a meia maratona, sentiu que “perdeu a graça” no esporte. Eu mesma, na última semana, não pratiquei nenhuma atividade física: não fui à academia, nem pratiquei a minha yoga rotineira. Estava cansada e simplesmente sentia que atender a esses compromissos me deixaria mais mentalmente exausta, justamente por eu assim os encarar, como exatamente isso: mais coisas a fazer.

 

O resumo dessa história é que adicionei duas novas tarefas ao meu dia: skincare de dia, skincare à noite. Será que as olheiras já não estavam “ok” do jeito que estavam? Não saberia responder. Fato é que agora não consigo mais deixar de cuidar delas – até pelo investimento nos tais séruns especiais. Sei que, por ter acesso a esses produtos e a esse conhecimento, me coloquei dentro desse mercado de luxo, de autocuidado, que nem todas as pessoas conseguem alcançar. Mas termino esse artigo me perguntando se o verdadeiro luxo não seria me ver no espelho e sentir que não há nada nele que precise ser melhorado ou mensurado...


[1] “Qualquer quantidade de álcool faz mal? Entenda por que não existe dose segura” Disponível em https://drauziovarella.uol.com.br/drogas-licitas-e-ilicitas/qualquer-quantidade-de-alcool-faz-mal-entenda-por-que-nao-existe-dose-segura/ Acesso em 30/08/2026.

[2] Tradução livre. 2025 Global Wellness Economy Monitor. Disponível em https://globalwellnessinstitute.org/industry-research/2025-global-wellness-economy-monitor/?utm_source=chatgpt.com Acesso em 30/08/2026.

 
 
 

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