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O melhor amigo da mulher

Foto do escritor: Ana Luísa
Ana Luísa
23 de ago.
4 min de leitura

Atualizado: 13 de set.



Quem me conhece sabe que um dos poucos itens de maquiagem que eu realmente compro sem culpa é o batom. Já tive vários de uma vez; já tive um único que repetia com frequência (criei uma seita de amigas fiéis ao Dior Addict 871); já me revoltei com a Natura quando ela parou de fabricar o CC Hidratante Una na variação terracota e até então procuro um substituto (encontrei algo parecido na Payot).

 

Por volta do ano de 2019, estive numa exposição muito interessante no Centro Cultural do Poder Judiciário do Rio de Janeiro – e aqui a internet me ajudou a resgatar – cujo título era “Mulheres, a Hora e a Voz – Direitos, Conquistas e Desafios”, que abordou de forma significativa a luta pelos direitos femininos na Constituinte de 1988. E como a atuação feminina na concretização de direitos ficou conhecida? É isso mesmo, o lobby do batom.

 

O termo que, reza a história, teria sido inicialmente usado de forma pejorativa pela oposição à época, foi incorporado pelas ditas feministas, virando um símbolo de luta para todas nós.

 

E não é que usamos esse símbolo todos os dias? Eu, pelo menos, uso até em casa. A partir disso, comecei a me perguntar como esse pequeno objeto, que cabe na nossa bolsa, ocupa tanto espaço metafórico em nossas vidas, até mesmo em uma dimensão política.

 

Primeiro, comecei a pensar no batom vermelho, que atravessou gerações evocando noções de sexualidade, glamour e, finalmente, feminilidade. E, comportando tantos significados, é hoje um item de beleza e maquiagem atemporal, que nunca deixa as estantes das maiores marcas de beleza.

 

Por outro lado, volta e meia vemos o (res)surgimento dos tons nudes e neutros que, apesar de serem cores que se aproximam do nosso tom de pele, levantam o curioso questionamento: nós realmente investimos tempo em dinheiro em um item que nos promete, nada mais, nada menos, do que nos deixar “naturais”, como se nada estivéssemos usando?

 

E por que isso? É minha percepção que qualquer maquiagem - e o batom não é diferente – nos desperta a sensação de cuidado consigo mesma, o ritual para se sentir bonita que dá aquele boost na autoestima. Afinal, muitas de nós (como eu), muito antes de saberem frações, por exemplo, já frequentavam os salões com nossas mães, avós e gerações de primas, tias, madrinhas. Além da evocação emocional pessoal que isso eventualmente traz, encaramos isso adultas como um presente que merecemos nos dar e receber.

 

Nesse contexto de socialização do autocuidado feminino, o batom, para aquelas que eventualmente continuaram adaptas, acaba se tornando uma metonímia desse processo todo – principalmente para mulheres que (mais uma vez, como eu!) não tem uma disciplina tão afiada para uma maquiagem completa, mas não dispensam o bem-estar proporcionado por esse único item. Com essa armadura, me sinto pronta para ocupar os espaços públicos, tão frequentemente dominado pela autoridade e pela perspectiva masculinas.

 

Minha preferência pessoal ultimamente tem sido pelos tons marrons bens escuros, aqueles quase rubis. É, de fato, uma opção que se destaca, mas, quando estou sem ele, já não me sinto inteira. Na verdade, sem meu melhor amigo, sinto como se nua estivesse.

 

A escolha por uma tonalidade mais forte também evoca algo que me recordo ter lido no livro das autoras Thais Farage e Mayra Cotta, “Mulher, roupa, trabalho”[1], sobre como historicamente os símbolos que evocam seriedade e poder na nossa sociedade, por um recorte de gênero, são aqueles comumente associados ao masculino: os tons sóbrios dos ternos, a ausência de estampas etc.

 

Trazendo essa discussão para o que estávamos falando sobre o batom, o esforço no uso de tons mais expressivos também acaba sendo uma tentativa diária de desconstrução de possíveis resquícios masculinistas de visão estética de seriedade. E tudo isso começou até mesmo antes do lobby do batom, com o uso político desse (singelo no tamanho, mas grande no significado) objeto.

 

E como, depois de tudo isso, não mencionar a pandemia e o pós isolamento, que ainda nos acostumou a viver com máscaras frequentemente nos espaços públicos? Teria o batom perdido a sua força e o seu impacto estético?

 

Talvez se o uso das máscaras tivesse assumido um papel mais permanente em nossas vidas após o desenvolvimento das vacinas e da saída dos estágios de risco. Ainda assim, durante o auge do isolamento, nas lives, nas chamas de vídeo em família, se via o uso desse indispensável e atemporal item nos lábios de suas usuárias.

 

O que toda essa digressão parece indicar é como esse objeto acompanha a nós – mulheres – há muito mais tempo do que imaginávamos, com uma importância histórica de peso, que nem sequer notamos nas nossas bolsas... Ele é um símbolo de feminilidade, de luta política, de autocuidado, de beleza e, por que não, mais ultimamente, de saúde – são os ácidos hialurônicos nas versões hidratantes, as vitaminas, os boosts. É aquele item essencial que, junto com a carteira e o celular, ocupam a menor bolsa que temos, pois, numa emergência, até em blush ele se converte.

 

Portanto, esse texto nada mais é do que um grande agradecimento meu a esse querido item, sem o qual eu não teria a mesma confiança tampouco os mesmos direitos que tenho (temos!) hoje. E se você, leitora, pensou que aprenderia mais sobre o lobby do batom & outras histórias nesse artigo, eu é que convido a você, a conhecer, mais de perto, o seu verdadeiro melhor amigo.

 

Um beijo colado,


[1] Cotta, Mayra; Farage, Thais. Mulher, roupa, trabalho: como se veste a desigualdade de gênero. São Paulo: Paralela, 2021.

 
 
 

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