Reflexões sobre o salto agulha

Atualizado: 13 de set.

Nessas últimas semanas, me deparei com a campanha da nossa eterna Carrie Bradshaw, Sarah Jessica Parker, para a Arezzo (já na sua segunda fase), o que deu o que falar nas redes sociais desde o seu início, com os scarpins coloridos anunciados pela atriz.
Isso me lembrou uma leve conversa que tive uma querida colega advogada há alguns meses, que me perguntou sobre sapatilhas de bico fino de pelos sintéticos, na cor bordô, que estava usando no momento. O par era rasteiro, isto é, sem salto algum. “Não tenho mais conseguido andar com esses sapatos o dia inteiro”, ela me disse, fazendo referência aos seus belos scarpins nudes, de salto 8.
Essa pequena anedota me fez refletir sobre minha adolescência, nos anos 2010, quando a referência estética que tínhamos eram aqueles magníficos Christian Louboutin’s de 12cm e, claro, a eterna Carrie Bradshaw (agora também sob o guarda-chuva do Grupo Azzas), sem medo de altura com os seus Manolos elevadíssimos. Certa vez, lembro de ter adquirido, ainda na casa dos 16 anos, dois pares de saltos finos – um preto e um vermelho, lindíssimos – em uma loja de departamento, mas com os quais não consegui andar nem no mesmo piso liso do shopping onde os comprei; nem preciso mencionar como seria experiência no resto do Rio de Janeiro, nas suas calçadas de pedras portuguesas...
Passados os anos, tendo sido acometida mais recentemente por dores de coluna, meu acervo de calçados começou a ser substituído por saltos baixos, na máxima altura de 6cm, limite este estabelecido apenas para manter um par de sandálias de tira dourada das quais tinha muito apreço no meu armário (mas que não consigo usar por mais de cinco horas ininterruptas!).
Acontece que essa rápida conversa com essa colega de trabalho, que foi ecoada com outras mulheres, me levou a pensar sobre como o salto alto fino, de 8 para cima, vem perdendo espaço no cotidiano da mulher que anda, fica em pé, senta e que fica mais de dez horas diárias fora do conforto do seu lar e de suas pantufas salto 0.
Pensando no que representou o salto alto para as mulheres, podemos pensar até nas sapatilhas de ponta das bailarinas, consolidadas no século XX. Falando de uma mulher ideal, perfeita, angelical e que apenas toca o chão terreno mediante uma única superfície mínima, tamanha elevação dessa criatura, o salto alto, por simples analogia de contato que temos com o chão, nos suscita essa mesma ideia.
E, assim como a bailarina, a mulher moderna foi apresentada ao salto como elemento de elegância, feminilidade e, cá entre nós, de superação, porque qualquer mulher capaz de sustentar um salto fino 8 ou 10 por mais de cinco horas, não pode ser um ser humano ordinário; afinal, ela toca o chão terreno mediante uma superfície mínima.
Contudo, tirando dessa discussão os eventos especiais (aqueles que duram três horas ou menos e passamos considerável tempo sentadas), pude perceber como a escolha dos scarpins, das sandálias e das botas altíssimas tem sido abandonada por muitas mulheres, inclusive minhas colegas profissionais, tendência essa que também que se vê muito no street style. Particularmente no Rio de Janeiro, que abraça brands como a Farm, Havainas, Osklen, o salto fino é, por vezes, em algumas ocasiões inclusive considerado deselegante (de tão formal). De todo o modo, em que pese nossa vestimenta, carioca, cotidiana seja essencialmente dominada por tecidos leves, vestidos, rasteiras, bermudas, a forma de se vestir em ambientes formais e, digamos, até conservadores, como é no mundo jurídico, tenta incorporar muitos desses símbolos estéticos de seriedade e de poder: terno para os homens, tailleur e scarpin de salto para as mulheres.
Acontece que, em um mundo em que as mulheres vêm conquistando espaço no mercado de trabalho, ocupando posições de importância e com dedicação intensa, isso sem mencionar o trabalho doméstico invisibilizado, não há tempo nem disposição para parecer inatingível ou angelical. Mais ou menos como aconteceu nos pós-guerra nas sociedades europeias, a mulher do século XXI precisa ser funcional. Precisa ser funcional para ir ao supermercado, para levar as crianças na escola, para dirigir seu carro, para ir de reunião a outra andando, para sair do seu curso ou da sua universidade e continuar sua segunda jornada de trabalho.
E, ainda que se fale de uma onda conservadora que se volta para à moda, para vestimentas de estruturas mais femininas, de resgate de referências dos anos 1950 etc., visível inclusive nos mercados de fast fashion, nem mesmo essa força motora parece sustentar o uso contínuo dos saltos agulhas no dia a dia.
Sim, o salto bloco, como gostamos de chamar, ganhou muito espaço recentemente. Eu mesma, comprei um último par de botas marrom, couro, cano alto, belíssima (mas de salto 6!). Mas mesmo o design em paralelepípedo não foi poupado da rejeição que vem se verificando daqueles que ultrapassam uma tolerância máxima de altura. Nessa mesma oportunidade que fui comprar a tal bota, desisti de uma outra, que tinha gostado mais, mas por conta do seu salto 10, que não aguentaria depois de meia hora de uso.
Longe de mim querer banir os saltos agulhas do mundo. Tenho certeza de que há mulheres que irão usá-lo e defendê-lo até o seu fim. Todavia, não se pode negar uma tendência que, diante de uma mulher que anseia por conforto, mobilidade e que se identifica com outros códigos de gênero, o salto agulha não vem tendo tantas adeptas. E isso é reflexo de uma leitura social específica do que é ser mulher na contemporaneidade.
Não é que a mulher não possa emanar esse lado inatingível, que remete a essa estética clássica do que é o ser feminino – e eu não poderia dizer diferente, em sendo uma grande fã de ballet clássico como sou. Mas esse lado não precisa ser o único ou o majoritário dessa mulher. Ela é resiliente, esforçada, exigente, dedicada. De fato, por isso, o salto agulha acaba pode não caber na complexidade que é ser mulher hoje. É trabalhar e ainda reter majoritariamente os aspectos da maternidade e da vida doméstica; é ocupar os espaços profissionais e urbanos e ainda poder ser hostilizada por sua condição de gênero; é lidar com significativas mudanças hormonais em um mundo que não entende totalmente as mudanças que ela passa ao longo da vida.
No final, indiquei a loja para minha colega advogada onde tinha adquirido minhas sapatilhas rasteiras de bico fino. Concordei que, há muito, não conseguia sustentar nada além de um salto 6. Ela assentiu, se identificando com o problema e se queixando de seus lindos sapatos desconfortáveis, indicando que eles ficariam destinados a eventos “especiais”. Eventualmente, voltamos a falar de trabalho. E como poderia ser diferente?
PS. Essa autora admite que, mesmo após essa reflexão, chegou a espiar os saltos 9.7cm da campanha Sarah Jessica Parker para Arezzo.




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