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Tendência vs. Estilo

Foto do escritor: Ana Luísa
Ana Luísa
16 de ago.
5 min de leitura


Na última semana, me peguei encarando meu guarda-roupas para fazer a minha rotineira “limpeza” semestral: significa separar roupas com as quais não me reconheço mais, aquelas que não cabem mais (com a idade, vêm as mudanças corporais, não é mesmo?) e aquelas simplesmente esquecidas, que merecem ser revividas.

 

No meu armário, vi uma jaqueta jeans do Hard Rock, peça herdada de família, com cerca de trinta anos de duração; ainda, um casaco que comprei em uma viagem aos EUA, com mais de quinze anos de vida comigo; um mocassim de couro com mais de dez anos de duração e muito uso. Ao mesmo tempo, também me deparei com uma bolsa que havia comprado há cerca de um ano e que já não era usada há uns seis meses.

 

Após separar, além da bolsa, uma calça skinny que merecia uma nova dona, me peguei pensando sobre o que realmente separa o que é tendência e o que é estilo. A própria ideia de tendência, algo transitório e temporário que ganha relevância entre as pessoas, está diretamente relacionada à moda. O que mais poderia ser tendência além das coleções de determinada temporada, enquanto expressão de um momento estético? Quanto a esse ponto, acho que podemos concordar.

 

Animal print, listras horizontais, mocassins de couro, poá... Essas são apenas algumas que vemos hoje nas vitrines das lojas com mais frequência. A pergunta que comecei a me fazer é, até que ponto seguimos às tendências e até permanecemos fiel ao nosso próprio estilo? Indo mais além, sabemos qual é o nosso estilo?

 

Como já disse Gilles Lipovetsky[1], o ciclo da moda já foi dominado por aquilo que as elites conseguiam adquirir a partir da produção manual das grandes maisons de alta-costura. O que era usado pelas madames e pelos cavalheiros da época era copiado pelas camadas economicamente menos abastadas, na medida em que seus recursos podiam arcar. A série CRISTÓBAL BALENCIAGA, sobre a vida do designer homônimo, além de ser uma excelente dica de fim de semana, é um retrato interessante das transformações que perpassaram essa forma de produção de vestimenta: trabalho manual de qualidade para aqueles que podiam pagar, cópias do prêt-à-porter, a princípio, com qualidade inferior, por não ser sob medida, para os demais.

 

Havia, portanto, um império de estilo e de tendências apresentadas nos desfiles; Chanel, Dior, Givenchy e a própria Balenciaga eram os grandes ditadores de moda de Paris, replicados no resto do mundo. Dentre alguns fatores que contribuíram para revolução que mudou esse cenário foi a ascensão do fast fashion, do street style e das redes sociais. Particularmente hoje, o acesso aos códigos estéticos está a um smartphone de distância das pessoas. Daí o surgimento de figuras influenciadoras, que retratam parte do estilo visto nas ruas e acumulam número significativo de seguidores simplesmente por terem a sua forma de se vestir validada por esses mesmos seguidores, sem a antiga imposição das grandes casas de costura. O fast fashion (apesar das recentes críticas que esse formato vem sofrendo), na sua disponibilização imediata, acelerou, ainda mais, a incorporação desses códigos no setor têxtil de massa.

 

Esse contexto contemporâneo deixa mais claro como (atualmente, mais do que nunca) não construímos a nossa identidade visual – o nosso “estilo” – fora desses recortes de tempo, espaço e algoritmo. Já nos esclareceu, ainda no início dos anos 2000, Miranda Priestly, que nenhum suéter azul-cerúleo é por acaso; é uma escolha intencional de um grupo específico de pessoas, produtor dessas tendências.

 

Portanto, convivemos com elementos de tendência o tempo inteiro, que acabam por formar uma linguagem, o estilo – algo que nos define para além de uma peça; um código que dá união aos elementos do nosso guarda-roupa e confere individualidade e singularidade nessa unidade, da qual nenhum outro guarda-roupa será igual.

 

De forma consciente ou não, a cada escolha de peça, contribuímos para a linguagem que comunicamos. Em conjunto, esses elementos que parecem aleatórios compõem os reflexos da nossa personalidade – e, mais uma vez, a citar Miranda Priestly – não prestar muita atenção no que se veste, por “se levar muito a sério”, é também uma escolha comunicativa, que evoca o seu estilo, seja ele qual for.

 

Voltamos então à dicotomia inicial dessa conversa, pensando agora como estilo e tendência estão intimamente ligados. Em que pese a tendência esteja comumente associada à ideia de novidade, atrelada a um ciclo econômico também capitalista, esta mais parece se configurar como um elemento à disposição do estilo. Eu, por exemplo, devo confessar não me sinto bem usando poá, mas determinado vestido com a tal estampa me despertou curiosidade na semana passada e me vez querer usar; ou seja, outros códigos estéticos, de corte, modelagem e desenho, despertaram meu interesse por essa tendência, da qual antes considerava não compatível com o meu estilo, mas acabei encontrando uma forma de traduzir essa estampa para a minha personalidade.

 

O estilo, dessa maneira, acaba se constituindo como uma espécie de diálogo estético que temos com as nossas versões de si mesmo. Seja formal, seja casual, seja jeans, seja alfaiataria, é o indivíduo – e a sua individualidade – que confere unidade ao estilo. Meu guarda-roupa reflete meu estilo justamente por ser meu. Pode ser clássico, despojado, (e por que não?) bagunçado, confuso, mas, ainda assim, meu.

 

Convido então, você, leitor, a olhar o seu armário de forma diferente depois dessa reflexão. O que podemos encontrar nele? Roupas que chegaram até nós como presentes de amigos, aquelas que não usamos mais, também a bolsa maravilhosa que usamos sempre e nunca largamos mais... Tudo isso faz parte de você. São aquelas peças-tendência ao longo de vários anos coletadas que, por permanecerem com você, são individualmente atemporais. Quando legitimadas socialmente, algumas delas ganham até o status de clássicas: o trench coach, o jeans, o blazer preto, a camisa branca...

 

Terminei a “limpeza” no meu guarda-roupas separando roupas que não representavam mais quem eu era. Em um mundo em que definimos as “tendências” como uma personalidade – clean girl, old money etc. – pude apreciar o conjunto de roupas que permanecem lá apenas por serem minhas, escolhidas a dedo para comunicar de que forma eu me apresento para o mundo e de que forma eu quero ser vista. Quando fazemos esse processo de forma consciente, entendendo o poder que a estética exerce sobre as pessoas (inclusive nós mesmos!), podemos brincar com as nossas várias versões, divertidamente.

 

E você, já foi ver seu armário hoje?


[1]In: “O império do efêmero: a moda e o seu destino nas sociedades modernas” (São Paulo: Companhia das Letras, 2009); e, em outra oportunidade, em coautoria com Jean Serroy, “A estetização do mundo: viver na era do capitalismo artista” (São Paulo: Companhia das Letras, 2015).

 
 
 

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